segunda-feira, 16 de abril de 2018

Rebeldes

Não contam argelinos nem marroquinos: esses tinham, uns e outros, bairros inteiros por conta, só em Paris. Não era assim no resto dos países árabes.
Começaram na Tunísia a ouvir-se as vozes da primavera árabe. Logo depois veio a Líbia, onde o Kadhafi dormia numa tenda guardado por amazonas. A Nato andou à caça dele e encontrou-o escondido num esgoto. Depois disso a Líbia desapareceu.
A seguir veio o Egipto, o Iraque e as fictícias armas químicas do Saddam. Até chegarmos à Síria.
Com as costas quentes por Moscovo, o Assad não cedeu. Despejou bombas barril sobre os rebeldes e mandou bugiar os anunciadores da Primavera árabe.
Restam as tropelias do palhaço pintado de amarelo, que manda na Casa Branca.

domingo, 15 de abril de 2018

Basta

Sobe a encosta, embebeda-te de  azul e não penses. Sente, silencia, e basta.
Se chover abriga-te numa lapa. 

quinta-feira, 12 de abril de 2018

Tempos

A Primavera já se mostrou sete vezes, mas sete se arrependeu.
O camponês foi à horta e atolou-se.
As andorinhas tremeram de frio, cruzaram o estreito e voltaram ao deserto.
As florinhas das fruteiras são promessas de açafates de ameixas doces.
De horas em quando o sol ainda desponta mas fica-se na promessa.

quinta-feira, 15 de março de 2018

Tijolos e trovas


O meu avô amassava tijolos
O meu pai fazia tijolos
Todo o dia eu carrego tijolos
E a minha casa onde está?!

[Fellini - AMARCORD]

quarta-feira, 24 de janeiro de 2018

Sátiro

Chamo-lhe assim e não é que o fosse. Mas era filho da dona Sátira, talhado para futuros, como então se cria.
Um dia foi mobilizado para Angola como alferes e foi parar a Carmona. Não tardou que lhe caísse nas mãos uma donzela, herdeira duma fazenda de café. Chegava ela das mãos dum outro alferes do arre-macho, que acabara o serviço e regressara à metrópole. O sátiro foi apanhado e casou.
Depois do regresso foi viver para uma quinta da família, à vista do rio Mondego. A água vinha do rio, lá ao fundo, a um quilómetro de distância. E tinha no portão, à beira da estrada, um painel de azulejos da Viúva Lamego.
Um dia vendeu a quinta e arranjou trabalho temporário na Siderurgia. Andou por lá uns tempos, enquanto a mulher e a sogra se instalavam numa transversal da avenida de Roma.
A fazenda de café tinha ido à vida. E a mulher dava aulas, a sogra passava o tempo e o sátiro punha na cabeça um chapéu à Sherlock Holmes e apanhava porrada das duas. Só para aprender aquilo que a vida custa. Mas foi tarde.

domingo, 21 de janeiro de 2018

Sinfonia


E o vento que vibrava nas agulhas dos pinheiros era uma sinfonia de sussurros doces. Hoje ouve-se a estalada das pás dos aeródinos a rodar no céu, a criar energia e calor. São os escravos modernos dum império velho. 

sexta-feira, 19 de janeiro de 2018

Vida

A cadela claudicou no parto, porque a história das fêmeas que morreram a parir não se esgota nos humanos.
Tinha lá dentro seis filhos nados-mortos.
A dona da cadela deixou correr duas lágrimas tristes.