terça-feira, 15 de agosto de 2017

Pontal

Podia ser uma pontada, que tantas vezes dá até um dia. Mas não. É o Pontal, onde esta cáfila de facínoras se reúne para a entremeada, tentando fazer-se ouvir. Duas mil almas penadas.
Todos os anos é a mesma merda. E o filho da puta do mestre de cerimónias faz por desconhecer que o Siresp foi em tempos aprovado pelo pau-mandado do Daniel Sanches.

segunda-feira, 14 de agosto de 2017

'Tão foi assim!

A dada altura o Guterres, bom espírito mas mau governante, declarou o pântano e foi-se embora. Com ele foi o Sócrates, seu ministro, que resolveu depois ir a Paris, buscar à Sorbonne os trunfos intelectuais que não tinha. E quando voltou tinha à espera a matilha das leis, essa corporação sinistra, para lhe tratarem da saudinha.
O PS ficara nas mãos de Seguro, um comparsa juvenil do Passos Coelho em vários objectivos. E foi altura de entrar em acção essa eminência intelectual do Relvas, que viera analfabeto do sertão e em três tempos se fez doutor.
O Relvas tratou de levar o Passos Coelho a São Bento, interrompendo um futuro brilhante no teatro Politeama a voltear zarzuelas. E a certa altura, seguro de que as grandes negociatas passavam pelos municípios, resolveu agir, avançando para uma reforma administrativa.
Foi então que o Rua, de Viseu, depois de açular o povo aos fiscais do ambiente, do alto da Associação Nacional de Municípios Portugueses lhe levantou a voz: vai-te foder e tira as patas daí, porque o lóbi autárquico foi sempre a grande força do PPD. E assim era.
O desgraçado Relvas extinguiu mil e tal freguesias, meteu o rabo entre as pernas e foi tratar da vidinha, como facilitador de negócios. É por onde tem andado, não se sabe bem com que sucesso. Nem interessa.
Voltam agora as autárquicas, enquanto o país arde inapelavelmente. Ninguém sabe ao certo o que fazer dele, enquanto prosseguem as negociatas. O povo emigra. É assim há 500 anos.

domingo, 13 de agosto de 2017

Homem velho e mulher nova dão filhos até à cova!

 
O apressado primarismo indígena resumiu A Cidade e as Serras a umas favas com chouriço em Tormes. E no entanto está lá muito mais que isso. Até a estirpe dos Jacintos ressurgiu da decadência!
Por pouco se diria que lá cabe metade do nosso séc. XIX, se não toda a nossa história. Que o resto pouco contou, e muito menos conta.
 
"(...) O rapazito emudecera, chupando o dedo, com os tristes olhos pasmados. E o Silvério sorria, com bondade:
- Nada! este é sãozinho... Coitado, é assim amarelado e enfezadito, porque... Que quer Vossa Excelência? Malcomido! muita miséria... Quando há o bocadito de pão é para todo o rancho. Fomezinha, fomezinha!
Jacinto pulou bruscamente da borda do carro.
- Fome? Então ele tem fome? Há aqui gente com fome? (...)".

sábado, 12 de agosto de 2017

Verão

Publicado há meia dúzia de anos, mais parece que foi hoje. Nem o linguajar francês de além-Pirinéus mudou de acento. 
" (...) Saudoso já de alguma realidade, vai acabar o seu dia na feira, onde anda tudo numa roda-viva em azáfamas de última hora. Já está montada a tômbola das rifas, à entrada, para distribuir ursinhos de peluche e batedeiras eléctricas a quem acertar na lotaria.
Logo depois vem o poço da morte, andam a acabar-lhe a escadaria. Entre braços de carrocéis voadores , pistas de engenhos de choque e as diversões costumeiras, sente o viajante a falta dos espelhos aldrabões da sua infância distante, e do comboio fantasma, e da rampa do canhão. Terão passado de moda, que já estão aqui as quinquilharias de plástico, e as barracas das bonecas matrafonas que vieram das fábricas chinesas, e os colares e os couros e as missangas que chegaram do Magrebe. Há balcões ambulantes de churros e farturas, e está pronta a exposição dos automóveis, tanto novos como usados. E também a das máquinas industriais e agrícolas, que tanta falta fariam nesses campos. (...)"
[Portugalmente, Peregrinação da Lapa a Riba-Côa, Jorge Carvalheira, Lx 2012, pág. 137]

sexta-feira, 11 de agosto de 2017

Feira de Agosto

Há um sobressalto na paisagem. Do céu fugiu a cor. A brisa bate à porta. Vem entrando Saturno, o melancólico.

Jordi Savall

Folías de Espanha. https://www.youtube.com/watch?v=5Frq7rjEGzs

quinta-feira, 10 de agosto de 2017

Primavera indecisa

Tenho à espera a Feira Cabisbaixa atrás dum microfone, a Feira do O'Neill, a feira de nós todos, que um cego encomendou à biblioteca sonora. Mas encontro no jardim de São Lázaro a Primavera a hesitar.
As camélias já andam pelo chão e a Primavera a hesitar, incham os botões dos rododendros e a Primavera a hesitar, os rebentos das tílias a explodir e a Primavera a hesitar, os velhos da sueca, são quinhentos, a improvisar a banca e a Primavera a hesitar,  a mimosa das coxas tentadoras a faltar-me no passeio o riso quotidiano, bons-dias
mimosinha, e os dentitos de marfim, o drapejar da pestana, o peito da mimosa a faltar-me os olhos, as formas arredondadas a morder-me no ventre e os pombos num badanal, a mulher desdentada a pedir-me um cigarro, a levar dois para a amiga encostada na esquina, a solicitar-me o favor dum lume, a mesura brejeira a agradecer-me, a aventurar se gosto de ir ao quarto e eu a dizer-lhe que não, um trunfo a cair na mesa a esquartejar a manilha e os pombos amotinados, e a mimosa que lá vem dobrando a esquina num riso de Gioconda a tentar-me de longe, os pés que já não comando na direcção dela, um instinto a farejá-la, a correr-lhe a garupa, o flanco acolchoado, o lago misterioso, quanto vale o teu riso, mimosinha, a Primavera ainda a hesitar e eu a deslizar-lhe a nota na palma acetinada, um roçagar de leve, uma aflição de seda...
E vou-me então à Feira Cabisbaixa, à Feira do O'Neill, à feira de nós todos, que um cego precisa dela, e a Primavera enfim se decidiu.
(a publicar)