quarta-feira, 29 de março de 2017

Gustav Leonard

Então quando o Verão chegava, a Casa de Mateus distribuía em Vila Real a cultura musical pelos municípios da região. E foi em Amarante que conheci o mestre do cravo na igreja de S. Gonçalo.
À noite, os espectáculos musicais eram na eira, num anexo agrícola da Casa. Ouvi lá a dona moderna da zarzuela espanhola.
Mais tarde as coisas mudaram, os artistas deixaram de vir, a música enclausurou-se na Internet e desapareceu dos nossos verões. Só nos ficou o luar e algumas constelações.

Doisneau 1912/1994

Famoso fotógrafo de rua.

Equívocos

Há uma palestra dum professor-doutor, que lá de longe vem à BMEL amplificar a ignorância geral e propagar equívocos. O seu tema é o lirismo de Gil Vicente.
Diz o mestre que não se detecta no criador dramático qualquer influência trovadoresca. Nem admira! Uma tal influência não seria de esperar, já que o nosso último trovador a sério foi o D. Dinis Lavrador, duzentos anos antes.
Gil Vicente não foi um poeta lírico. Foi um espírito moderno, mais renascentista que outra coisa, produtor de textos dramáticos. Foi o ilustre pai do nosso teatro, logo que ele existiu.
Havia lirismo no seu tempo (todos nós somos líricos!), mas esse está no Cancioneiro Geral de Resende. "Senhora, partem tão tristes/meus olhos por vós..." de João Ruiz de Castelo Branco.
Gil Vicente usou o verso como forma de expressão (redondilha maior) na sua criação dramática. E não é da natureza do texto dramático expressar emoções do sujeito. "Partem em Maio daqui/Quando o sangue novo atiça/Parece-te isto justiça?... (Auto da Índia).
Assim, em lugar de desfazer equívocos, o mestre veio de longe amplificá-los. Como se fosse preciso.

terça-feira, 28 de março de 2017

País surpreendente

Tão surpreendente é, que guarda uma surpresa em cada esquina.
O Freixo tem Alpajares no fim de Junho, para quem tem dentes para ele. Tem os carrões da Europa, com que os europeus do Norte povoam os sonhos dos cafres do Sul, a quem os vendem porque não querem chatices. E tem ali, na avenida, uma loja do cidadão, nem mais. Como ela fica num patamar acima da rua, está equipada com cadeira elevatória para velhos e deficientes. Sentam-se na cadeirinha, carregam num botão e ela sobe. Eu pasmo.

sexta-feira, 10 de fevereiro de 2017

Há muitos anos...

Era Natal, foi-me oferecida esta novela dum biólogo canadiano, em tradução alemã. Trata-se nela da saga do último maçarico-esquimó, um poderoso migrador que se deslocava entre os círculos polares, e acabou extinto a tiro no século passado, nas vastidões do midwest americano.
Tratava-se duma editora que já não existe, num país que já não há. E mais tarde fiz dela uma tradução que me agrada, que há-de ser editada porque não existe em português e nos faz falta.
Na altura estava a chegar ao fim o meu tempo de exilado, às mãos dum Torquemada cujo nome me escapa. Tratava-se pois de regressar, porque a guerra a sério era em Lisboa. Mas eu não tinha passaporte de regresso, e tinha que ir arranjá-lo num consulado do Maputo, recém-independente.
Dois dias antes da partida apareceu a amigdalite. Quando ela vinha eram três dias de antibióticos poderosíssimos e devastadores.
Fui ao hospital, mas a Frau fugiu a dar-me antibióticos. E recomendou-me umas pastilhas de chupar. "Já estou fodido!", pensei eu. E estava, mas muito menos do que imaginava.
No dia aprazado entrei num avião que me levou a Moscovo, onde fiquei à espera a tarde inteira, numa sala de trânsito. À espera do Aeroflot que me poria em Maputo dois dias depois. Aí é que estava o consulado que me dava um passaporte português.
A amigdalite devorava-me a garganta, provocava-me dores de condenado, impedia-me de engolir fosse o que fosse. Mas embarcámos quando a noite caiu.
Lembro-me de ter visto as luzes do Cairo, um oásis na noite africana, "antiquíssima e idêntica". E da hospedeira russa, uma mamuda, que olhava com ar maternal este viajante que recusava as laranjas e não engolia nada.
Mal sorriu a manhã aterrámos em Aden, lá onde o Camões penou, "junto dum seco, fero e estéril monte". E o monte ainda estava lá ao fundo, por trás dum cordão de dunas, ainda fero e seco como em tempos idos. Outra vez me senti a tomar parte na gesta gloriosa.
A escala seguinte foi em Mogadiscio. Já andavam muito mal as relações entre Moscovo e a Somália, por isso a hospedeira se encostou a uma porta e aguardou a inspecção. Isto muito antes de aterrarmos em Dar-es-Salam, no final do dia.
A temperatura subiu muito, e eu trazia no corpo o sobretudo de inverno, donde partira. Mas aguentei-me até chegarmos ao Maputo. Aí o funcionário não me deixava sair, porque não lhe mostrei visto de entrada. Sentei-me num sofá, disse-lhe que apenas na embaixada haveria solução. E ela acabou por chegar, na pessoa dum funcionário que me deixou num hotel.
O hotel era redondo, modernista, e mal me achei nele fui para a rua. Até que encontrei numa farmácia um branco de bata branca, disposto a dar-me os meus antibióticos. No caminho comprei a uma vendedeira um abacaxi enorme e levei-o para o hotel. Depois meti-me na cama e aguardei. 
Durante a noite julguei que morria. A garganta sabia-me a podre, escarrava uma substância escura e mal cheirosa que me agoniava. Mas de manhã veio o sol e eu estava salvo. Desapareceram as dores, comi metade do abacaxi e fui à procura do consulado que havia de me dar um passaporte português. E ele chegou um dia, das mãos duma funcionária que estava tão grávida como a Senhora do Ó.
Mandei dizer a Lisboa em que avião havia de chegar, vindo do Maputo. Lisboa portou-se bem, mandou um major para me receber e levar-me para Caxias. Fui ouvido por um juiz, e fui mandado para casa, à espera dum julgamento. Que não chegou a existir. 
Mas já não havia casa, nem família, nem trabalho... para que serviria o julgamento?! 

quinta-feira, 9 de fevereiro de 2017

Batem leve, levemente

Será chuva? Será gente? Nada disso, felizmente! O que há é neve na Lapa, a desabar lentamente. E essas crianças, senhor? 
Dá-thes vida e muito amor!

078902630RH+

«E de súbito isto regressa como um vómito, o mesmo enjoo, o mesmo mal-estar, o mesmo nojo. O prisioneiro sem pernas que se amarrava ao guarda-lamas do rebenta-minas e gritava o tempo todo. O quartel da Pide com os prisioneiros lá dentro, e a mulher do inspector que lhes dava choques eléctricos nos tomates. O alferes que durante um ataque saiu da caserna com um colchão sobre a cabeça, a borrar-se literalmente de medo.O primeiro morto, um condutor a que chamávamos Macaco. A gente a escolher os nossos próprios caixões na arrecadação: continuo a lembrar-me do meu. Pregava-se a medalha que trazíamos ao pescoço, com o número mecanográfico e o grupo sanguíneo
(a minha 078902630RH+)
na madeira. Os pelotões de regresso da mata, desfeitos de cansaço. O helicóptero
- Atenção mosca atenção mosca
dos feridos. A minha pergunta constante
- Porquê?
o ruído do milho, à noite, contra o arame. O apontador de metralhadora, ferido no pescoço, que continuava a disparar. Os nossos morteiros 70 contra os morteiros 120 do MPLA. O Melo Antunes a comunicar que tínhamos feito prisioneiros
(uns velhos, uma mulher grávida)
o pide a dar um pontapé na barriga da mulher grávida, o Melo Antunes a apontar-lhe a pistola e a mandá-lo ir-se embora, o pide a ameaçá-lo, o general furioso com o Melo Antunes. Como perdíamos muitas camionetas com as minas, a ordem
- As Mercedes são ouro, os homens que piquem
e com as picas das minas anti-pessoais a arrancarem as pernas aos soldados. Metia-lhes garrotes e iam acabar no Luso de embolias gordas. Isto regressa como um vómito e tenho de falar nisto. E vocês têm de ouvir, porque eu continuo a ouvir. Em nome do Pereira, do Carpinteiro, dos outros que perdemos. Vocês têm de ouvir. Mesmo que eu escreva isto mal porque estou a escrever com o sangue dos meus mortos. Não posso esquecer. Não consigo esquecer.(...) Não terei sido um criminoso por haver participado nisto? O Melo Antunes
- Às vezes apetecia-me morrer
e não teremos, de facto, morrido disto, Ernesto? Porquê? O Melo Antunes
- Cada vez mais isto me parece um erro formidável
e a mim não me parecia nada, apenas queria durar. Comíamos merda, bebíamos a água porca dos filtros. Eu comi. Eu bebi. (...)»
[António Lobo Antunes, Terceiro Livro de Crónicas, Lisboa, 2006, Ed. D. Quixote]