quinta-feira, 25 de maio de 2017

Última tentação

Então ela quis tentá-lo definitivamente. Olhou bem em volta, com extrema atenção. Mas só conseguiu encontrar uma pera pequenina e pálida.
Ficaram os dois numa desesperante frustração.
Não há dúvida que o Paraíso está a tornar-se cada vez mais chato!

quarta-feira, 24 de maio de 2017

Poço sem fundo

Não sei bem o que a vida seria, sem música, sem literatura e sem pintura. Uma das minhas frustrações há-de ser partir um dia para a eternidade sem levar um instrumento musical, para lá tocar. Ainda assim imagino o que ela será, passada entre cus de anjinhos loiros e cânticos de louvor.
Era eu pouco mais que infante, na mão dos jesuítas (chamo-lhes assim!), quando obtive permissão para passar os intervalos em frente duma pauta de música, em vez dos jogos. Havia em cada sala uma organeta de pedais, que simulava um órgão. Passado um tempo e já se ouvia cá fora um arremedo duma sonata de Bach. Havia quem passasse e fosse ver. A nossa vida é mesmo um poço sem fundo!

Revolução

O Rogério afirmou, convicto:
- É para sexta-feira. Sem falta.
- Sexta-feira? - espantou-se o Antunes, sem perceber lá muito bem.
Sim, claro. Sexta-feira - insistiu o Rogério. - Saimos prá rua. Está tudo combinado. O que é preciso é a ditadura do proletariado. Então não te disseram nada?
- Não tenho estado por cá estes últimos dias - retorquiu o Antunes, um pouco enfiado. - Mas vamos fazer o quê, na sexta-feira? Confesso que só ouvi falar vagamente nisso. Não tenho estado cá, já te disse.
O Rogério franziu o sobrolho.:
- Que diabo, homem! A revolução. Que querias que fosse?
- Ah, pois! - O Antunes pareceu aliviado. De repente sobressaltou-se:
- Mas olha que sexta-feira é já depois de amanhã. Achas que há tempo?
- Está tudo preparado - acalmou-o o Rogério. - A Tucha traz-nos as metralhadoras na quinta-feira à noite, depois do jantar. Na sexta, às oito, oito e um quarto da manhã juntamo-nos com o nosso núcleo.
O Antunes parecia um pouco desconectado:
- Mas há bastante gente?
- Claro, homem, claro. Temos os camponeses e os operários connosco. É a tomada do poder. Rápida, fulgurante, sem dar tempo a qualquer recção revisionista. É tiro e queda, é o que eu te digo.
- E temos bombas? - perguntou o Antunes, já entusiasmado.
- Temos, evidentemente.
- Bastantes?
- Ó Antunes, esse teu anarquismo latente ainda dá cabo de ti. São bastantes, sim.
- Então vou.
O Antunes esfregou as mãos, encantado, e saiu batendo com a porta.
Na quinta-feira a distração era geral e os grandes chefes partidários continuavam a descompor-se mutuamente, com excelente eficácia. Tudo óptimo. Mas na sexta-feira começou a chover a potes, logo de madrugada. E não parou mais. E esta, hein!
Foram todos para a discoteca do Martinelli, no carro do Jonas. Ouvir canções revolucionárias cubanas e música chilena.
Por sinal que a música chilena é bem bonita.

terça-feira, 23 de maio de 2017

Boneco

"São no entanto os portugueses que estão de parabéns neste dia e são, sobretudo, os portugueses quem hoje quero felicitar". (O laparoto, hoje, no DN)

Ó Láparo, cá por mim vai felicitar o caralho! Percebeste ou faço-te um boneco?

Cravo

Então quando o Verão chegava, a Casa de Mateus distribuía em Vila Real a cultura musical pelos municípios da região. Recebia revoadas de músicos que enviava pelo distrito. E foi assim que em Amarante conheci o mestre do cravo, Gustav Leonhardt, na igreja de S. Gonçalo.
À noite, os espectáculos musicais eram na eira, num anexo agrícola da Casa. Ouvi lá a dona moderna da zarzuela espanhola, Alicia de la Rocha.
Mais tarde as coisas mudaram, os artistas deixaram de vir, a música enclausurou-se na Internet e desapareceu dos nossos verões. Só nos ficou aquele inesquecível luar nocturno e algumas constelações no céu.

Mário Henrique-Leiria

"O MÁGICO ENCANIZADO

- Então que é que você quer que eu faça? - retorquiu zangado o Samuel. - Naturalmente pensa que posso mesmo fabricar coelhos, não?
- Mas, ó Sam, isso de só tirar caramelos e chaves velhas do chapéu , não dá nada. Ninguém acredita, que diabo! Um caramelo, uma chave, ora bolas, então que magia é essa?
-E você paga o coelho? E olha que o coelho, às vezes, até sai correndo que ninguém mais o apanha.
Fizemos um acordo. Eu fornecia os coelhos, as fitas coloridas, até mesmo as bandeiras patrióticas, tudo o que fosse necessário para surdir do chapéu. Depois era com o Samuel isso do espanto popular.
E deu resultado. Lá íamos.
O Sam esmerava-se, saía tudo daquele chapéu magnífico e tubular. A mulher dele, em cuecas e um sutien americano, dava o apoio conveniente e as crianças funcionavam, trazendo a mesa de pés dourados e o saco preto dos mistérios e pasmos.
Mas houve certa altura em que verifiquei, com alguma reserva, que embora as fitas, as bandeiras das pátrias e até os caramelos e as chaves continuassem a sair em abundância, coelhos nenhum.
Deixei seguir, porque a assistência lá ia aplaudindo e eu também tinha o meu número com aquela bendita onça que só me dava dores de cabeça e arranhões razoáveis. Deixei seguir mesmo.
E de coelhos nada.
Foi então que notei que as crianças do Sam tinham um aspecto muito saudável e anafado.
Quando a onça resolveu ficar mais bonitinha e deixou de me dar ralações, achei que era altura de inquirir.
- Vamos lá saber, ó Sam. Estou pagando coelho e mais coelho, todos os que você pede e, nestes últimos dias, não tenho visto surdir nenhum desse chapéu desgraçado. Que diabo anda você fazendo com eles?
E, ostensivamente, mirei os três filhos do mágico que, rechonchudos, pasmavam para a nossa conversa.
O Samuel não gostou. Achou abuso.
- O número agrada ou não? - retorquiu, enfezado.
- Bem, não se trata disso. O que é preciso é fazer sair coisas graúdas do chapéu, coisa que pareça que não cabem lá, coelhos, por exemplo.
- Se o caso é esse, de coisas graúdas, não se preocupe você com os coelhos. Não se preocupe, é o que digo, que hoje à noite vai ver.
E afastou-se, encanizado.
À noite a função correu como de costume. O trapézio funcionou certo. a minha onça não me arranhou excessivamente, os palhaços esbofetearam-se com a dignidade devida e chegou o número do Sam.
Começaram a sair as fitas e as bolas. Aplausos. Vieram os caramelos atirados p+ara a assistência. Mais aplausos, o chapéu parecia inesgotável. E então, ó coisa inaudita, primeiro um, depois outro, finalmente o terceiro, os três filhos do Sam, sorridentes e saudáveis, saíram também, lentamente, com extrema precisão, daquele chapéu alucinante."

segunda-feira, 22 de maio de 2017

Estes dias tempestuosos

" (...) Por mais negro que se apresente o futuro imediato, nem tudo está perdido. A humanidade dá-de sobreviver pela fé e a esperança, o amor e o sofrimento de um punhado de homens que se encontram em todos os campos, dispersos por todos os partidos e em todas as nações, os homens que dizem: "a despeito de tudo, aconteça o que acontecer, eu creio". São eles a raiz sagrada, o contingente salvador. É nos seus corações que está guardada a força que alentará a ressurreição, quando a aurora dissipar os terrores da noite. (...)
O mundo não se destrói ou cai, com descobrimentos e invenções, nem com o tropel dos exércitos ou o estrondear produzido pelos aviões de bombardeamento. O mundo levanta-se ou tomba em virtude das leis da vida (...)".